“Fidel Castro renuncia, após 49 anos de poder em Cuba”

Líder cubano publica mensagem no Granma anunciando sua saída da presidência de Cuba, após 49 anos no poder
Fidel Castro, último líder comunista do Ocidente, renunciou ontem à presidência de Cuba. No poder há 49 anos - um recorde entre os estadistas vivos -, Fidel sobreviveu a dez presidentes americanos e a mais de 600 tentativas de assassinato, a maioria orquestrada pela CIA. Sete em cada dez cubanos vivos só conheceram um único presidente: El Comandante.
Aos 81 anos, Fidel comunicou sua aposentadoria por meio de uma carta publicada
pelo diário oficial Granma. No texto, ele fala dos problemas de saúde e aponta
para a necessidade de o povo cubano acostumar-se com sua sucessão. "Preparar (os
cubanos) para minha ausência, psicológica e politicamente, era minha principal
obrigação depois de tantos anos de luta."
Fidel escolheu a dedo o momento para se afastar. Em janeiro, os cubanos elegeram
614 novos integrantes do Parlamento, que deveriam ratificar o nome de Fidel ou
escolher um novo líder em votação marcada para domingo - provavelmente o de seu
irmão Raúl Castro, que há um ano e meio governa o país em caráter temporário.
Para dar ares definitivos à interinidade de Raúl, ele optou pela renúncia.
"Comunico que não aspirarei nem aceitarei o cargo de presidente do Conselho de
Estado e de comandante-chefe", disse Fidel na carta.
Centralizador até na hora da despedida, foi assim, por vontade própria, com dia
e hora marcados, que o velho revolucionário saiu de cena. Não foi um adeus, como
deixou claro o próprio Fidel em sua carta-renúncia. Foi-se o comandante, mas
ficou o companheiro, que continuará comandando o país dos bastidores.
Nas ruas de Havana, embora conscientes do momento histórico que representava a
renúncia, os cubanos reagiram com uma discreta indiferença. "Isso não é
notícia", disse Elizardo Sánchez, um dos líderes da dissidência e fundador da
Comissão Cubana para Direitos Humanos e Reconciliação. "A renúncia já era
esperada e não muda a situação dos direitos humanos nem o sistema de partido
único. Não há razão para comemorar."
O ceticismo de muitos cubanos reflete o fato de não haver surpresas na sucessão
de Fidel, que está afastado da presidência desde 31 de julho de 2006, quando
passou o poder para o irmão Raúl em razão de uma grave crise intestinal.
Na época, a notícia foi recebida com muito mais surpresa pelos cubanos, que não
sabiam o que seria da ilha sem Fidel e ainda tinham dúvidas sobre a capacidade
de Raúl manter-se no poder.
Aos poucos, no entanto, depois do afastamento e de algumas cirurgias, ficou claro que a Cuba pós-Fidel não seria necessariamente o fim do regime. Enquanto Raúl assumia seu espaço e acenava com reformas, Fidel se recuperava, recebia chefes de Estado e se dedicava a escrever artigos, muitos deles dando sinais de que a sucessão estava próxima. Em dois deles, escritos em dezembro, Fidel dizia que não estava mais "apegado ao poder", o que muitos analistas interpretaram como sendo um prenúncio da renúncia.
(NYT, REUTERS E AP)
::história

Fonte: Jornal o Estado de São Paulo (20/02/2008)